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que um dia os dias parem

Os carros passam, os ponteiros giram, os muros caem, as pessoas andam. Ao contrário dos movimentos, eu resolvi esperar em silêncio, parei na calçada e deixei o tempo atravessar a rua com sua fileira interminável de dias longos.  Foi então que as coisas aconteceram e o dinamismo continuou  de uma forma que eu não pude acompanhar.

Eu me perdi nas passagens, nos giros, nas quedas e nos caminhos. Estática e mórbida. É bizarro como sei dizer poucas palavras, penso muito e não faço nada. Penso, porque estou parada, se estivesse dentro dos carros, olhando para as horas, derrubando as barreiras e caminhando com os outros, provavelmente não percebesse a travessia do tempo. Enquanto aguardo, sinto que estou na idade e situação errada. Também não quero aceitar o passado e não planejo nem imagino o que encontrarei do outro lado, logo à frente. Sim, estou incomodada com tudo que passa e não me dá a chance de agarrar e grudar em mim feito superbonder.

Pessoas, momentos, lugares. São todos uns fugitivos, se transformaram em lembranças e se resignaram a me deixar sozinha.

Quero congelar comigo aquelas cores, aqueles momentos, cada coisa que foi um presente destinado a ser passado.  Não quero lembranças, não quero saudades. Quero um hoje que seja para sempre.

Agora que está tudo apagado, meio acinzentado, eu fico pelo meio.

Meio da calçada, meio do chão, meio dos fatos. Só no meio, só existindo, como um poste – não sabe se vive, não sabe se faz alguma diferença, apenas está lá – com um fim limitado.

Sim, eu espero que muitas coisas se repitam, ou pelo menos que algumas sensações voltem. Não existe o eterno retorno? Que ele valha para mim.

Quero a minha felicidade ingênua de volta, quero as voltas.

Protótipo de gente

Estou frequentemente mal humorada e fria, logo não tenho oportunidadades para escrever o que quero, só redações chatas, com temas que raramente me interessam. E o blog fica em 2568 plano.

Já tem um tempo que tempo deixou de ser tempo e agora não passa de uma mistura de fatos, uma massa gelatinosa e confusa de coisas que aconteceram e estão por acontecer. Não sou capaz de diferenciar os dias, todos iguais, a mesma cor, as mesmas vozes, o mesmo sol que não colabora. Não me pergunte quando começou e terminou um dia, já perdi essa noção, porque antes eu não contava pelas horas, mas pelos acontecimentos. Como não tem acontecido nada, os dias não existem. Nem sei se ainda preservo alguma criatividade,  já  que estou correndo por ai, esquecendo coisas pelo caminho, como todo mundo. Perdi o conceito de prazer e estou sendo cobrada para ser uma perfeita ameba em coma.

Protótipo de gente.

Logo eu, que sempre me esforcei para não me igualar às pessoas artificiais que vejo todos os dias, para ser pelo menos autêntica, verdadeira comigo mesma, que ninguém escolhesse por mim. Bah! Esqueci  de quem sou, do que gosto e principalmente,  de ser gentil.  Melhor, esqueci de ser eu mesma,  de fazer o que gosto e de estar perto de quem prezo. E nem sei de quem é a culpa por toda a bagunça.

depreciação do humor

A vida deveria imitar um  comercial de margarina

tato e sensibilidade

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Agora eu tenho um sabor estranho na boca, não sei se gosto. Agora eu tenho uma sensação no braço que não me deixa, como se alguém o tivesse segurado com uma força indecente e a possessão ficou marcada na minha pele.

Eu não reconheço meu corpo, é difícil identificar onde começa e onde termina o que realmente  faz parte de mim. Mesclado em outro material, até meu cheiro não é o mesmo. De alguma forma, isso me leva a crer que não estou mais sozinha, principalmente depois da pressão disfarçada de calor que nem o tempo conseguiu apagar.

Um telefonema

Existem dois pesos, um dia descubro a medida deles, mas por enquanto, só sei que existem e são profundamente notáveis. De um lado da balança tem aquele que está sempre de partida, cujo fardo de culpa se acumula em cada despedida. De outro, está sentado aquele que sempre assiste as idas, aquele que fica e carrega  nas costas as dores da saudade.

Aprecio a energia  da presença, rezo para o adeus nunca chegar. Em algum momento eu  cansei de esperar pela volta ou de ter que inventar uma maneira nova de me desculpar pela ausência. Uma hora todas as demonstrações de afeto se esgotam e tenho simplesmente que me render à agonia de um adeus silencioso. Prometer um regresso breve já não funciona, talvez nunca tenha funcionado.

A repetição é algo que fica monótono.

Depois ainda tem as ligações, os telefonemas estranhos que deveriam trazer algum conforto.

Entre um oi e um tudo bem, nenhuma palavra mais, apenas um silêncio constrangedor e uma vontade de ficar mais tempo na linha só para sentir a presença humana do outro lado. Um pedaço de intimidade, um fiapo de voz, a respiração pesada denunciando alguma culpa, um suspiro, qualquer emoção é captada num desespero psicótico. Há um esforço dos dois extremos para manter alguma conversa, mas só sabemos falar do tempo e de qualquer coisa que não nos interessa, não porque queremos fingir, essa fase já passou, apenas não sabemos o que fazer com a distância, ainda queremos de um jeito ou de outro guardar algum registro da nossa existência, ter certeza de que ainda nos conhecemos e fazemos parte do mesmo mundo, talvez somente a voz nos baste como recurso,  talvez não, temos que tentar, como sempre.

Num dia muito escuro perdemos o laço que nos unia, ou talvez ele nunca tenha existido, mas as conveniências sempre nos fizeram lutar para ter alguma coisa em comum. Lembro-me que já gostei de futebol só para ter o que falar com você, julgava que isso nos aproximava mais. Até passei a torcer pelo seu time só para sofrermos das mesmas dores ou estar feliz pelas mesmas razões. Você se orgulhava de mim, isso me incentivava a decorar o nome de todos os jogadores, de todos os campeonatos e a data de todos os jogos. Só para ter um bom motivo para ficarmos eufóricos juntos, porque de alguma maneira nada mais importava, eu era a filha certa para você. Agora não sei dizer quando foi que parei com isso. Hoje eu digo que o futebol não diminuia a corda que nos separava, tanto que eu nem sei mais em que divisão seu time está. Sim, seu time, não mais meu. Tenho que admitir que tudo isso cansa, não tenho energia para me forçar a gostar de coisas que não combinam comigo. Por enquanto, fiquemos com o silêncio que nos sobrou.

suave como a brisa

balanço no céu

A menina sentou no balanço e tomou impulso.

Entre um toque e outro do pé sobre a grama o balanço tomava altura, até ganhar o céu. Enquanto se deixava levar pelo ar, a criança nem se preocupou com o vestido, mas estava tudo seguro, do jeito que tinha que ser. Seus pés já não precisavam do chão, estavam soltos, longe da gravidade, quase perto do sol e mais próximo das nuvens.

Ela ainda não sabia o significado da simplicidade desses momentos, ela ainda não reconhecia o quanto o seu sorriso era autêntico,  nem entendia que o mundo era pequeno, porque para ela: ele ainda era infinito. Tenho certeza de que mais tarde tudo passará mais rápido, ela nem vai perceber que não terá mais tempo nem coragem para jogar o corpo no ar como agora;

Naquele instante, ela capturou a eternidade só tentando alcançar o céu. Aquilo era o mais alto que a corda podia ir, mas ela acreditou que havia criado asas e voava como um pássaro em liberdade. Entre as tantas coisas que ainda não tinha conhecimento, a ideia de estar presa era uma delas, ela só ria e brilhava por causa dessas realidades que  não conhecia, simplesmente porque ainda não tinha descoberto os seus limites. Oras, com a ajuda do vento ela só pensava em conquistar o ponto mais alto, mesmo sem saber que na terra não havia mais espaço. Creio que a ingenuidade era uma virtude.

A felicidade custava barato, ela sabia que custava, mas logo isso entraria para a lista das incontáveis coisas que deixaria de saber. No fim das contas, ela nunca soube de muito, enquanto a única coisa que realmente importava saber o mundo precisaria de poucos anos para fazê-la esquecer. Quando dizem que conhecimento é algo que ninguém pode te tomar, sou obrigada a negar, essa é uma das coisas que nem sempre ficam. De alguma forma as pessoas esquecem. E a menina do balanço nunca pensou que a felicidade não passasse de um voo.

Sentimentos negativos

OBS: Acontece de às vezes eu não me lembrar da pessoa que fui ontem, portanto, fico sem entender quem eu era quando escrevi este texto.

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Eu te odeio.

Queria que você caísse numa cova e nunca mais fosse  encontrado, queria mesmo. Além do mais, eu não sentiria nenhum remorso de ser a única pessoa a saber que você está sofrendo e que vai morrer na agonia. Enquanto estiver com fome e sede, eu estarei brindando seus gemidos de desespero com um copo de coca-cola gelada acompanhada de uma rodela de limão. E estarei rindo alto.

Eu ainda não terei nenhum ataque de consciência ao ter a certeza de que o mundo sentirá a sua falta, porque nós dois sabemos que pessoas como você fazem a diferença, sempre fizeram.  Afinal,  são pessoas com o seu espírito que tornam o mundo mais doce, mais justo, mais suportável. Tudo isso porque além de existir, você vive e todos te percebem. Tanto que aquele termo “nem cheira nem fede” nunca combinou com você, sua natureza é unicamente entrar num lugar e dar cor, dar vida ao sangue daqueles que estão ali, faz com que todos sintam orgulho de estar ocupando o mesmo “espaço” que você. Admito que no começo também me senti assim,  mas descobri que não me fazia bem encontrar alguém tão isento de defeitos. Foi então que passei a sofrer de dores abdominais agudas  sempre que você se aproximava, enquanto dava saúde à muitos, você roubava a minha,  hoje me apaga.

Por muito tempo não entendi essa sua necessidade de impressionar, de deixar grifado seu nome onde que quer passe. Assim que descobri o quanto o mundo não te merecia, o quanto as pessoas são ingratas e hipócritas, cheguei à conclusão de que prefiro elas a você.  Eu odeio a sua verdade, eu odeio a sua transparência, eu odeio o seu amor pela vida e toda aquela autenticidade tatuada nos seus olhos. Eu quero matar a sua crença de um mundo melhor. Mais ainda, eu quero ser os macedônicos que destruíram Alexandre, o Grande, por temerem a sua sede de conquista. Aí sim, terei certeza de estar contribuindo para o fim do mundo simplesmente extinguindo aqueles indivíduos que o fazem valer a pena.

Ex-amigos

Para o que der e vier, diziam-se um ao outro.

Mas nem para o que desse, nem para o que veio. Não passaram de promessas ingênuas, confianças momentâneas, segredos que foram trocados somente porque não conheciam outro uso para os seus pedaços de intimidade. Entretanto, foi dolorosa a convicção de que todas as pessoas são substituíveis quando um dia eles próprios se cruzaram na rua e fingiram que não se viram.

Apesar da sensação de culpa percebida por ambos os lados e daquela dor de terem deixado para trás fragmentos do corpo, não conseguiam voltar para confessar a falta que sentiam um do outro. Concluíram com tristeza que era tarde demais e  decidiram sem consultarem-se, que deveriam,  enfim, deixar tudo como estava. Conformaram-se com a batalha perdida, era preciso acostumar-se ao inevitável abismo que de repente se colocou entre eles.

O homem de terno cinza continuou seu caminho como se nada estivesse acontecendo. Realmente, nada acontecia além da rotação da Terra e tantas outras coisas que aquele pobre alienado não conseguia perceber. Eu queria dizer que a culpa não é dele, o fato de estar passando às cegas por tudo ao seu redor é explicável porque a sociedade o fez assim. Mas se eu afirmar isso estarei excluindo ele dessa “sociedade”, enquanto no final das contas, ele é todo esse conjunto que o fez assim. Então não há como escapar na hora de procurar um culpado, todos os homens de terno cinza são culpados. Melhor, todos os homens de terno.

Um passo mais largo, outro menor, não importa, desde que seja rápido. É preciso chegar logo, o relógio já não marca as horas, mas o tempo que ainda resta.

Junto com ele, havia na rua cerca de mais cem mil homens de ternos: ternos preto, cinza, listrado, marrom.  Gravatas de bolinha, xadrez e quadriculada. Todos eles com uma maletinha na mão, andavam apressados, esbarrando uns nos outros, a maioria com o pescoço esticado e alguns ainda estavam com o celular próximo ao ouvido. Se eu não visse esse cenário todos os dias, poderia dizer  que ele veio de um quadro de Salvador Dalí. Aqueles homens caminhavam como se não se notassem, como se estivessem sozinhos. Não creio estarem errados, estavam sozinhos de verdade. É engraçado como eles se conformaram em continuar.

Não devo deixar de mencionar as mulheres, elas também são parte desse povo de terno,  que sai de um lugar e vai para o outro pior ainda. Que acorda de manhã para fazer algo que não gosta. Que toma um rumo estranho como se tivesse nascido fazendo isso. Passos frenéticos e automáticos.

Eu sempre tive a impressão de terem sido fabricados em série. Humanos genéticamente modificados para o trabalho. Não duvido que se obriguem a ir ao cinema, ao shopping e à praça, não por prazer, mas para verem se conseguem permanecer no auto-engano. Eu penso muito a respeito disso, sempre achei que o mais difícil era fingir para si mesmo, mas admito que talvez  eles estejam conseguindo. Se robôs começassem a circular junto com eles, ninguém ia perceber a diferença entre as duas espécies.

Ela só tinha perspectiva, mas naquela idade não poderia ter outra coisa. Dois dias passam rápidos, um ano mais ainda, está para chegar o dia em que terá sonhos jogados no asfalto. Pelo menos tem consciência disso, sonhos não são feitos de cal e tijolo,  e ideias são que nem farinha, basta uma ventania e vão embora corrompidas.

Atou o nó do all star surrado, colocou a mochila nas costas e foi até o ponto de ônibus. Dessa vez ela não vai jogar com a sociedade, apenas pegar a sua liberdade que  desde há muito tempo estava guardada em algum bolso do seu jeans mais antigo. Mas não perdida, apenas esquecida. Chegou a hora de deixar gravado os seus versos, de marcar seu nome de forma silenciosa, não quer mais nenhum barulho, nenhuma guerra.

Agora ela não se importa mais com a demora do transporte, não tem pressa, não tem hora para chegar, aonde está indo não tem ninguém esperando por ela,  nenhum compromisso, nenhuma responsabilidade, senão aquela que prometeu a si mesma: “Respirar, sentir, viver”.  Enquanto houver alguém reclamando por dias melhores, por uma vida mais justa, ela fará seus próprios dias melhores, sua própria vida,  e ninguém poderá tirar a certeza de estar cumprindo seu dever. Porque ela sabe o que vale a pena, onde está o verdadeiro, o precioso.  E agora, tão somente agora, ela tomou consciência do que quer. Disse adeus aos velhos ideais baderneiros, ao aquecimento global, ao sistema de cotas,  ao mensalão, à legalização do aborto, ao preço das passagens, às preocupações cotidianas. Haviam outros jovens para substituí-la, sempre haveria. Assim como nasceu um Robespierre, também veio um Guevara, heróis não morrem, ela já fez sua parte, já descobriu como é fácil lutar e esquecer pelo que está lutando, já conheceu a frustração e a vitória. Neste momento -  enquanto ainda é jovem – está entregando o abacaxi para outro. Mesmo que não acreditasse mais em revoluções, ela faria mais uma, dessa vez interna.  O mundo que se matasse sozinho, ela ia arranjar seu jeito de sentar numa grama fresca e ler um romance de Kerouac.

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