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Archive for junho \08\UTC 2008

O Alienista

Estou preocupada com minha lucidez.

Descobri que tenho as mesmas manias de um louco chamado Simão Bacamarte, que é o protagonista do conto de Machado de Assis.

Nunca havia analisado profundamente as minhas semelhanças com esse cara, mas na sexta-feira, durante um trabalho de literatura, eu e Dóris nos chocamos com tal descoberta, apesar de já ter lido o livro, mas não ter prestado atenção nessa identificação.

Nós duas passamos a semana toda conversando sobre nossa mania mais deliciosa: a de analisar as pessoas que conhecemos e classificá-las. Sim, nós reparamos em cada detalhe pessoal, psicológico e físico de tal conhecido e discutimo-os para depois engavetá-los na sua respectiva classificação. Claro, isso tudo sem que qualquer pessoa tome conhecimento. Sabe que assim é mais fácil conhecer as pessoas? É sim, mas a maioria das vezes, as classificaçõe e apelidos que taxamos são maldosos. Não posso falar muito disso porque corro o risco de travar uma rebelião popular contra nós.

 Mas enfim… Simão Bacamarte é um médico psiquiatra do livro que resolve criar uma casa de Orastes (hospício) na pequena cidade de Itaguaí. Esse lugar recebe o nome de Casa Verde, e passa a receber os loucos da cidade com toda a hospitalidade possível – melhor dizendo, até demais – para que eles possam ser estudados e curados.  

Simão Bacamarte é um homem que coloca a ciência acima de tudo, e considera o estudo da mente a chave da cura de muitas doenças. E então os insanos ficam trancafiados na Casa Verde, sem que o resto da população tome conhecimento do que se passa lá. Mas isso não tem muita importãncia porque logo o restante da população participaria das coisas que acontecem na Casa Verde.

Sim, meus caros.. ironicamente o nosso célebre doutor passa a nos colocar em dúvida quanto ao bom funcionamento de sua cabecinha, porque ao observar as outras pessoas que ele vai conhecendo na rua, ele descobre manias, vícios e expressões considerando-as patológicas. E todas as pessoas que ele classifica de loucas vão paara a Casa Veerde contra a própria vontade. O resultado é que os cidadãos de Itaguaí começam a se preocupar com a crescente quantidade de pessoas que são mandadas para a Casa Verde, pessoas que não tinham nada – aos olhos da população – que os julgassem loucos. Inicia-se uma rebelião por parte de quem não habitava a Casa Verde – pois temiam por seus familiares e amigos que foram mandados para lá por motivos que ninguém entendia – e os revoltados receberam o nome de Canjicas, eram liderados pelo barbeiro Porfírio, que tinha como maior ambição a vontade de crescer politicamente.

Juntando a quantidade enorme de pacientes para curar e depois a rebelião popular, o Dr Bacamarte não precisava de mais nada para querer desistir da responsabilidade. Porém esse homem é extremamente tranquilo e calculado demais, tinha uma resposta para tudo e todos. Soube como lidar com  a revolta, com a Cãmara Municipal, com as dívidas, com a esposa e com os pacientes, como se nunca tivesse havido problema algum no meio do seu caminho.

O leitor já vai desde o começo suspeitando da sanidade desse Bacamarte, principalmente depois de ter colocado quase a população inteira sobre vigília na Casa Verde como se todos fossem deficientes mentais. Sabe o mais louco de tudo? É que ele sempre tem um nome para a loucura de cada um.

Quando a revolta tá muito esquentada ele liberta os ‘loucos” da Casa Verde, só que mais tarde ele reinicia as internações e começa tudo de novo; Mas na segunda vez, as pessoas são liberadas “curadas”.

E então, não sobra nenhum habitante insano em Itaguaí. Ah não ser, como todos já suspeitavam desde o começo, o próprio Bacamarte talvez fosse o único louco.

Ele enfim chegou a conclusão crucial do perfeito desequilíbrio do cérebro. Afinal, não somos todos iguais, são essas manias, pequenos detalhes que nos diferencia do outro, talvez essas coisas realmente deveriam receber o nome de loucura, mas nem por isso temos que ser prisioneiros delas. Nossos defeitos são parte de nós mesmos que talvez não precisem ser curados.

O homem frio, calculista e culto reconhece isso e resolve se internar e buscar a cura de si mesmo.

Estou com medo de precisar fazer isso comigo.

Mas tudo bem, esse livro me deixou ainda mais resolvida do que quero da vida. Esse gosto absurdo e estranho de analisar profundamente as pessoas e apelidá-las é uma das minhas grandes paixões, por que desistir disso? Não me importo de ser uma Drª Bacamarte da vida.

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