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Archive for novembro \28\UTC 2008

Às três da tarde

um pinguinho de maldade

escorregou pela folha e

morreu antes da verdade.

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o amor possesso

O sol já despontava sinais de partida ao incendiar o céu de um vermelho sangue. Nesse momento, a rua de asfalto molhado era atravessada com muito cuidado pelo Padre Tomás, que contava os próprios passos, como se não quisesse sair do lugar, receando atingir o seu destino. Havia uma ânsia de estar lá, ao mesmo tempo que tinha medo de chegar. Ele realmente não queria continuar sua caminhada, talvez nem estivesse andando, seus pés simplesmente o carregavam automaticamente. Neste dilema de ir e não chegar, o clérigo refletia, não como normalmente os clérigos refletem, naquela natureza bondosa de servos de Deus, mas sim como um homem em toda sua fraqueza de homem. Já fazia algumas semanas que andara com pensamentos distantes, na verdade se chocou ao lembrar que talvez naquela hora fosse a primeira vez, em quinze dias, que tirava um tempo para meditar, ultimamente não tinha feito uso da razão, algo que exercitara por 40 anos de vida seminarista e paroquial. Dessa forma implorava que um motorista bêbado dilacerasse seu cérebro contra a linha amarela do asfalto, mas pobre esperança, não havia uma alma-penada nos próximos cem metros, até mesmo a rua pedia para ser atropelada.

Em todos esses anos, nunca tivera um caso tão difícil, embora soubesse que em algum momento da sua vida sua fé seria contestada e ele enfim, teria que provar ser mais forte que suas dúvidas. Não, ele não tinha a sua crença em Deus sendo abalada, tinha certeza da Sua invisível presença e poder absoluto. O que o deixava contra as paredes era sua fidelidade, sua lealdade. Um homem jurado de castidade não deve nunca se render às tentações, mas agora ele não tinha medo do castigo divino, caiu sem receios na rede do amor e a única coisa que temia era um demônio. Necessitava de uma fé maior que ele para enfrentar o que tinha pela sua frente.

Dois meses atrás, padre Tomás foi convocado para libertar uma garotinha possessa. Diante do desespero dos familiares, ele em toda sua segurança e confiança, aceitou a missão. Já tinha lidado com esse tipo de coisa antes, possuia plena capacidade espiritual para enfrentar legiões de fantasmas satânicos, principalmente por esta reputação os pais da menina o procuraram. Ele apenas não fazia idéia de que não tinha defesas contra aquilo que o esperava, muito mais potente que ele, porque se trata de algo pelo qual nunca estivemos preparados, como aquela visita indesejada que nos bate a porta de madrugada, e o amor é assim, nem pergunta se o queremos antes de dar o bote. É, foi desse jeito que sucedeu com esse padre, até lhe passou pela cabeça que fosse uma arma do diabo, essa de iludir as pessoas, enfeitiçando-as, fazendo com que se traiam por meio dessa coisa pura. Ao chegar nesta parte, nesta em que o amor é puro, a idéia de que ele pudesse ser usado como objeto satânico não fazia o menor sentido.

O que precisava era de uma fé, de uma oração poderosa, mas só tinha nas mãos, ou melhor, na cabeça, aquela lembrança tenra da pele infantilmente suave, daquele sono doce que perderia o encanto se despertado, efeitos que só as menininhas sabem causar. Lhe salpicava as entranhas quando recordava os dias em que deitado na cama ao lado dela, colocava o seu braço debaixo do pescoço delicado de menina, e assim eles ficavam se encarando no silêncio dos amantes, ela com a cabeça apoiada ao braço dele e ele acariciando aquele rosto de criança, enquanto seus olhares faziam promessas antes que seus lábios começassem com as juras de amor eterno.

Quando não estava sobre domínio do demo, ela tinha aquela capacidade pueril de ser tão dócil, e provavelmente foi esse mesclado de selvageria e docilidade que o encantou. O fato de ela se lembrar dele sempre, de ansiar por ele mesmo nos momentos de desesperada explosão, o fazia pensar que talvez ela não estivesse realmente possuída, talvez apenas fosse um complexo de personalidade e isso o consolava, preferia uma louca a uma endemoninhada. Mentira, ele a amaria sobre qualquer pretexto, mas temia tremendamente se aquele demônio a levasse de perto dele. Talvez também amasse um pouquinho aquele indesejável ser, que era como parte irremovível da essência daquela criança, que a enchia de perigo e promiscuidade, talvez, talvez… são tantos talvezes da vida que ele chegou a aquela conhecida conclusão de que o amor enxerga além, é capaz de suportar todo tipo de merda e continuar ali, de pé. Entendê-lo já é início de loucura.

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Monet

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rendi-me

Não faço idéia porque ainda estamos nessa,

afinal, também não sou pagadora de promessas

Pegue seus planos e também minhas loucuras

procure um lugar e os enterre,

suma, suma com tudo.

Que desapareçam nossos sonhos

e todas aquelas bizarrices.

Não vale a pena, você sabe e eu também.

Só temos a perder, mesmo vencendo a guerra.

Todo campo de batalha tem um lado maior de corpos mutilados, pra quê continuar?

Você quer  permanecer sangrando em troca de quê?

Sim, estou desistindo, como sempre, e daí?

Que morram todas as nossas causas, eu sou fraca mesmo.

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