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Archive for dezembro \28\UTC 2008

A vez da missionária

Quando o fantasma de pessoa viva me toma, sei que por vários dias serei essa mulher do missionário. A magreza e a delicadeza dela já me tomaram. É com algum deslumbramento, e prévio cansaço, que sucumbo ao que vou experimentar viver. E com alguma apreensão, do ponto de vista prático: ando agora ocupado demais com os meus deveres para poder arcar com o peso dessa vida nova que não conheço, mas cuja tensão evangelical já começo a sentir. Percebo que no avião mesmo já comecei a andar com esse passo de santa leiga. Quando saltar em terra, provavelmente já terei esse ar de sofrimento físico e de esperança moral. No entanto quando entrei no avião estava tão forte. Estava, não, estou. É que toda a minha força está sendo usada para eu conseguir ser fraca. Sou uma missionária ao vento. Entendo, entendo, entendo. Não entendo é nada: só que “não entendo” com o mesmo fanatismo depurado dessa mulher pálida. Já sei que só daí a uns dias conseguirei recomeçar a minha própria vida, que nunca foi própria, senão quando o meu fantasma me toma.

Clarice Lispector

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Enquanto observava os movimentos rotativos de um ventilador que não ventilava, mas que apenas gastava energia, ela repassava na memória cada palavra que ele lhe disse como se estivesse recitando um poema.

” Eu te quero muito mais além.

E não vou a Belém,

logo, não diga adeus,

só ‘fica com Deus'”

E deixou  um beijo carinhoso  na testa dela que ficou grudado por meses, como se ele ainda estivesse ali, como se a ausência só o tornasse mais real. Se não fosse a esperança, naquela despedida simulada de consolo, talvez ela enlouquecesse, pois foi  algo que guardou como de mais precioso, para acreditar que dessa forma ela o tivesse de volta.

Pode parecer desespero, mas para quem espera, nada é pouco, qualquer palavra ou gesto simplesmente serve. A sobre-vivência se faz necessária, caso ele retorne.

Por enquanto é sempre inverno, ela não quer saber de brisas, só mantém o ventilador ligado, com as idas e voltas, com seu giro onde o retorno é uma regra. Naquele caso, lentamente, mas que volta, mesmo sem vento. Assim poderia ser com ele, assim tinha que ser com ele, uma ida com volta.

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o trampolim

Túnel escuro, infinitamente longo, crescente, eterno.

Tudo que é incerto, inseguro,  fogo do inferno.

Futuro e suas  escolhas, alguém as faça por mim.

Mergulhar profundamente de cabeça e nua?

Antes do salto, a adrenalina fatal e crua

Nada mais que viver simplesmente.

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Mesmo que a vida diga não

“…pra algum lugar do interior
Até o dia em que tudo será mais simples…”

Mesmo que a vida diga não
Mesmo que ainda não tenha sido como a gente planejou…
Ou mesmo que nos reste apenas lembranças de perfumes doces

Continue lembrando…
Momentos que são apenas nossos
Planejando um futuro que não conhecemos…
Porque as belas árvores ainda esperam por nós!

Ponta de lápis, outra de amizade
Quero que se lembre de mim
Ponta de saudade
Mas quero que se lembre, sempre!

“Até quando a cidade cantar a nossa música
E dançar o nosso som”

Lucas Denadai (12/09/07)

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explosão

o que eu poderia dizer, pressinto o perigo,

perco o controle, morro a todo minuto,

como se a morte de uma pessoa fosse constante.

Esses dias são pesados, sufocados e despercebidos.

Não vejo, não tenho tempo de notar, só sentir.

Todo esforço que faço tem aquela imensurável chance

de se transfomar em pó.

Nem sei se respiro, sei que o coração bate,

bate, bate, bate, até o peito não suportar.

A qualquer momento pode-se ouvir algum grito ou na pior das hipóteses, visualizar um desmembramento.

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