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Archive for janeiro \27\UTC 2009

a casa das dores

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Quero falar daqueles lugares que cheiram a formol e cloro, com paredes marfim-levemente-manchadas.

Traumatizante é conseguir chegar onde deseja, quando nem mesmo se encontrar é possível. Labirintos, escadas, corredores sombrios com aromas. E tem gente que ali vive, melhor dizendo, ali  sobrevive.

A morte nesse ambiente é mais do que visitante, sua entrada é franca  e constante. Talvez ela nem tenha a oportunidade de sair – já que é possível se perder por nunca ter achado a porta de saída -,e até mesmo acampe de boa vontade num daqueles quartos escuros. Já me passou pela cabeça que seu perfume predileto fosse o arejado formol-cloro que lembra limpeza, que sua cor favorita fosse o branco-fluorescente e sua melhor hora do dia fosse aquela em que o sol já não se encontra presente, não que os seres humanos tenham preferência por algum horário pra serem levados para o outro plano dimensional, as pessoas morrem a qualquer hora. Nada disso… talvez, talvez, talvez porque o sol não custume estar ali. Ainda acredito que a dona nem goste de estar nesse lugar, já ouvi dizer que as pessoas acabam perdendo o gosto pela aquela atividade que se vêem obrigadas a realizar todos os dias. Mas como não se trata de uma pessoa, deve haver algum prazer em se erguer simpaticamente sobre aquele que a aguarda suplicante, num quarto de paredes marfim-levemente-manchadas. Com certeza o fim de cada um tem algo de particular, um suspiro único, é possível que a dona seja apenas uma colecionadora de últimos suspiros.  Muitas vezes ela sem querer deve se transformar no alívio, não na tristeza, quem tem dor implora pela morte como um anestésico, um sedativo eterno. Então também há alguma dignidade, como qualquer tipo de trabalho honesto, essa coisa de levar embora?

Para disso, estamos saindo do foco, eu queria falar do lugar, não do ser que o frequenta.  Já que o local serve exatamente para evitar o fatal, adiar o inevitável, como ficam gravados os seus sons agitados, gritos cortados, ordens enérgicas nos ouvidos daqueles que estão partindo? O agradável passa longe, conforto é apenas um sonho.

Existem aqueles que estão ali apenas para servir, naquelas vestes brancas que lembram fantasmas vagando, não sei se marcam-se presentes por prazer, talvez a tentativa de salvamento seja alguma dívida ao pensar que aquele que estava deitado agonizante poderia ser um deles. Depois de dez anos correndo por locais semelhantes, a vida deve parecer um desafio mais interessante que a morte.

Tudo é tão vermelho e branco em alguma sala depois de uma porta denominada “Centro Cirúrgico”. Paredes marfim-levemente-manchadas mal são notadas, simplesmente porque quando a gente se acostuma, outras cores deixam de existir. De vez em quando tem quem venha fazer uma piada, algum riso pode ser escutado, mas logo o som é abafado por passos, passos apressados, metal arranhando o chão, sons comuns.

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