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Archive for fevereiro \26\UTC 2009

Açúcar com café II

O fato de estar sozinha não a tornava mais invisível, na verdade era até mais chamativa a ausência de um acompanhante. O silêncio que pairava entre ela e o outro lado da mesa se tornava assustador e o glub glub que o café fazia em sua boca chegava a ser ensurdecedor.

As pessoas que observavam os movimentos simétricos que ela realizava com a xícara deixaram de ser apenas uma impressão e passaram a serem reais, dolorosas.

Quanto mais tempo passava ali, mais torturada se sentia pela falta de algo que ela não entendia, a vontade de terminar imediatamente a bebida para assim ir embora se fazia desesperante, mesmo que ao sair dali ela fosse apenas partilhar solidão em outro lugar, ficar num mesmo local por mais de 5 minutos a fazia parecer um monumento histórico digno de atenção. Ou uma cabeça exposta na rua para os olhos de todos.

Há quanto tempo era dona de um coração tão gelado? Não era capaz de lembrar da própria vida sem estar sozinha numa mesa para dois, bebendo uma xícara de café bem doce. Ela não existia antes e segurar uma xícara quente parecia estar fadado a ser eterno, para sempre solitário, uma vida resumida.

No momento ela só consegue pensar em sair dali, correr é a melhor palavra. Correr enquanto chora, como geralmente fazem aquelas meninas da TV. Libertador, tentador… Mas ela não perde a compostura, não perde o ar de superior, se não há ninguém com ela é porque ainda não nasceu a pessoa certa para estar ao seu lado. Para viver o silêncio entre uma golada e outra de café quente açucarado. Agora ela está só, sozinha com o resto do mundo.

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Açúcar com café

cafe

A moça gorda que vestia um avental laranja deixou maquinalmente uma xícara de café sobre a mesa e perguntou  com a mesma frieza se a cliente desacompanhada desejava mais alguma coisa. Apenas um olhar negativo foi o suficiente para a garçonete deixar sozinha aquela mulher que aparentemente esperava por alguém, como todas as outras pessoas que sentavam numa mesa com duas cadeiras naquela cafeteria. Mas o que a dona do avental não sabia era que a mulher se sentou naquela cadeira apenas porque não existia uma mesa para pessoas solitárias, e que sem companhia ela só precisava daquele café, para lhe deixar aberta a mente, algo que também gostaria de fazer com os seus sentimentos congelados, embora não  lhe permitissem tal prestígio. Enquanto a vaga da cadeira a sua frente estiver vazia, ela  apenas pode mover a xícara até a boca e esquecer que não tem ninguém no mundo para ela.  E que talvez ela só atraia mulheres de aventais laranjas que não conseguem disfarçar o olhar de desprezo, de repente ela seja uma dessas mulheres também, de repente… Todavia, ao contrário da moça melancólica, aquele líquido parecia estar bem quente, pelando, fervendo, borbulhando… mas sem se importar ela se apressou a tomá-lo. O resultado foi uma queimadura na boca e  a percepção da falta de açúcar, aquele café tinha um gosto extremamente amargo, como o seu coração. Nervosa diante de sua culpada precipitação, ela entornou quatro conchas com açúcar e energicamente misturou tudo com outra colherzinha de plástico. Era assim que ela gostava do seu café, bem doce, quase mais açúcar que pó. Desejava fazer o mesmo com sua vida mesquinha, lançar o máximo de açúcar, abafar o gosto do pó… do escuro amargo.

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É… e agora?

Ontem eu acordei, e para meu azar eu acordei justamente na hora em que me deitei. De repente, naquele momento de olhos fechados, em que começamos a pensar na vida e suas coisas, enquanto deveríamos estar escrevendo as idéias que nos passam pela cabeça – porque só nessas horas conseguimos ser preenchidos de inspiração – mas não podemos nem mesmo pegar um papel, porque a gravidade parece ser maior quando estamos deitados em cima d’um colchão e de pijamas. Como eu dizia, naquele momento eu acordei, simplesmente fui clareada. Tudo tornou-se uma grande besteira, perdi o valor das coisas, nada tinha mais tanta importância, porque descobri que na verdade eu nunca me importei mesmo, apenas ficava preocupada com coisas e movia pouco por elas. A tristeza maior é que ninguém se importa também, a maioria finge, e se alguém se importa com alguma coisa é pura besteira.

Sim, tive um triste choque de realidade, maldita noite. Afinal, a vida num sonho é tão linda, inocente e sem perigos. Apesar de morrer sempre que estou pesada, estar leve me torna vazia e sem graça. Francamente, nunca estive leve, na verdade eu sou bem pesada, só que quando eu tenho outros pesos além de mim, nem me percebo. Mas quando me desvencilhei de todas as minhas cargas, me descobri sem aguentar a mim. De repente eu consigo me olhar no espelho e não ver a minha espinha a lot montanhosa – como normalmente acontece – só vi a mim, não vi a minha pela oleosa, o meu cabelo armado e  minha sobrancelha que está sempre por fazer. Eu sempre procuro pelos meus defeitos físicos quando me encaro naquele vidro cuja imagem volta pra mim, todavia não era o que me ocorria. Eu olhei diretamente para aquela pessoa, e como não me lembrasse dela, fiquei encarando a por muito tempo. Era eu antes das ilusões amorosas, das idealizações, das paixões, dos sonhos. Sem nenhuma preocupação, nenhuma obsessão, nenhuma dor. Não soube ao certo como me comportar diante daquele misterioso ser que se apresentava nu a mim, bem transparente, nas melhores das palavras: desiludida, acordada. Era possível enxergar o interior – se fizesse muito esforço poderia ver um coração batendo – chegando a ser bem obsceno. Mas não havia nenhum sentimento, nenhuma emoção, nada que pudesse ser interpretado, pensei que talvez essa fosse a essência, e querer entender as pessoas e o que elas querem dizer muitas vezes é uma grande bobagem. Ali estava um alguém que eu mal conhecia, olhei para ela e tentei alguma comunicação, perguntei qual era o nome dela… ela não me respondeu. Então comecei a ficar com medo daquela expressão irritada, daquele rosto familiar, mas distante.

Eu descobri que nada tinha a dizer. Nada mais vale a pena, se havia algum valor, agora está tudo sem preço, livre e de graça.

“O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos.

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Não me roube de mim

Não me chame de coração, nem de amor, nem de musa, nem de outras coisas que eu não sou  pra você, nem pra ninguém. Não me faça mais poemas, não me dedique nada que não te signifique alguma coisa, porque eu sempre acabo acreditando, inevitavelmente eu vou caindo na sua rede para nunca mais sair.

Ainda não sei dizer se todas essas palavras fazem bem à minha saúde, mas só alimentam cada vez mais a minha ilusão e sendo assim,  o que farei com ela, de que me serve ela? Mesmo que me seja  mais vivo estar dentro de um sonho do que no monótono chão da realidade, o que posso fazer com uma idealizaçao? Ir à loucura? Não tenho medo disso, não temo a dor, não temo nada que me faça sentir a vida quando o real nada significa.

Retiro tudo o que disse, não pare de me dar nomes, não pare com o que começou, eu já caí mesmo, nem me imagino voltando a ser alguém. A realidade morreu  antes que eu pudesse impedir.

Posso ser uma lunática, posso respirar um ar que não existe, mas se isso me sustenta, não ouse tirar de mim então, não ouse tirar aquilo que  me entregastes sorrindo. Agora deixe esse carinho comigo, já que não sou mais eu mesma,   que nada tenho de mim ao me olhar no espelho, pode ao menos permanecer tudo como está? Não preciso de nada do mundo, nem da água, nem do alimento, você se tornou meu tudo, minha sobrevivência.

Um dia eu vou ter que parar de acordar e de adormecer com você ali, sempre ocupando o primeiro e o último pensamento. Um dia eu precisarei de existir, porque eu sei, e  Deus sabe que ser invisível não me torna inatacável, o mundo ainda me nota, embora estar na lista das pessoas vivas que não existem me torne apagada, pálida, distante… como um fantasma. Não que eu me importe de passar despercebida, sempre gostei do silêncio, da sombra e do canto escuro, mas você tirou todo o restante do sal que eu tinha para as outras pessoas. Assim como eu não existo, elas igualmente estão mortas para mim, enquanto a verdade triste e real é que  elas estão presentes… em carne e osso.

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como se tudo eu pudesse…

Quero o que ainda não está consumado, o sonho ainda impensado, o ato ainda imaginado.

Quero o que não existe, o que ainda será criado. O amor pré-inventado, uma canção pintada. Se existem máquinas, o que não existia é porque antes ninguém havia pensado ou criado para existir. É isso o que quero, a idealização de uma criação.

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Leminski

Ai daqueles
que se amaram sem nenhuma briga
aqueles que deixaram
que a mágoa nova
virasse a chaga antiga

ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é pão feito em casa
e que a pedra só não voa
porque não quer
não porque não tem asa

Paulo Leminski

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