Feeds:
Posts
Comentários

Archive for abril \28\UTC 2009

Ela só tinha perspectiva, mas naquela idade não poderia ter outra coisa. Dois dias passam rápidos, um ano mais ainda, está para chegar o dia em que terá sonhos jogados no asfalto. Pelo menos tem consciência disso, sonhos não são feitos de cal e tijolo,  e ideias são que nem farinha, basta uma ventania e vão embora corrompidas.

Atou o nó do all star surrado, colocou a mochila nas costas e foi até o ponto de ônibus. Dessa vez ela não vai jogar com a sociedade, apenas pegar a sua liberdade que  desde há muito tempo estava guardada em algum bolso do seu jeans mais antigo. Mas não perdida, apenas esquecida. Chegou a hora de deixar gravado os seus versos, de marcar seu nome de forma silenciosa, não quer mais nenhum barulho, nenhuma guerra.

Agora ela não se importa mais com a demora do transporte, não tem pressa, não tem hora para chegar, aonde está indo não tem ninguém esperando por ela,  nenhum compromisso, nenhuma responsabilidade, senão aquela que prometeu a si mesma: “Respirar, sentir, viver”.  Enquanto houver alguém reclamando por dias melhores, por uma vida mais justa, ela fará seus próprios dias melhores, sua própria vida,  e ninguém poderá tirar a certeza de estar cumprindo seu dever. Porque ela sabe o que vale a pena, onde está o verdadeiro, o precioso.  E agora, tão somente agora, ela tomou consciência do que quer. Disse adeus aos velhos ideais baderneiros, ao aquecimento global, ao sistema de cotas,  ao mensalão, à legalização do aborto, ao preço das passagens, às preocupações cotidianas. Haviam outros jovens para substituí-la, sempre haveria. Assim como nasceu um Robespierre, também veio um Guevara, heróis não morrem, ela já fez sua parte, já descobriu como é fácil lutar e esquecer pelo que está lutando, já conheceu a frustração e a vitória. Neste momento –  enquanto ainda é jovem – está entregando o abacaxi para outro. Mesmo que não acreditasse mais em revoluções, ela faria mais uma, dessa vez interna.  O mundo que se matasse sozinho, ela ia arranjar seu jeito de sentar numa grama fresca e ler um romance de Kerouac.

Anúncios

Read Full Post »

batendo na mesma tecla

em número contínuo de vezes…

Read Full Post »

Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
– dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Adélia Prado

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Hoje eu tive uma aula de literatura – nas próprias palavras do professor – muito charmosa. Como sempre fico muito empolgada com as aulas dele, resolvi postar dois poemas que ele recitou encantadoramente  para explicar sobre intertextualidade. Aqui temos uma paródia da Adélia Prado com o poema de Carlos Drummond de Andrade

Read Full Post »

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo

Carlos Drummond de Andrade

Read Full Post »

Dizem que em março as águas vêm, lavam tudo, levam consigo o que estiver solto ou fora do lugar. Mas chega abril e todos os objetos e sentimentos já estão espalhados, marcados pelas águas que passaram noutro mês. Agora é só sentar, ver o mundo girar e olha que sentado, completamente despreparado vem o vento te surpreender, como um furacão que despedaça tudo o que sobrou apenas para te provar na queda de braço o homem fraco que você é.

Você olha para baixo e o que tem aos pés não é o mundo e sim um escombro do que já foi teu castelo, são cinzas de um passado recente. Passeie com os olhos e procure o que estiver ao seu lado, se sentir falta dos membros, não se desespere, ainda vai perder a cabeça. É só um mês de perdas, abril desfigurado. Coração amassado, dores misturadas e lançadas ao liquidificador.

Read Full Post »

Meninos choram

Ele era um garoto, ele não passava disso, ele nunca foi mais do que isso. Mesmo que tivesse cinquenta ou vinte e dois anos, ele seria sempre, para sempre, um garoto. Ele tem coração, ele tem sentimentos, ele tem alma de menino que ganha bombom da vovó todo domingo, ele cheira a talco, ele inspira uma vontade de abraçá-lo a todo momento que é visto, ele é todo poético, mas as palavras dele vem de qualquer lugar, que não é dele. É só um garotinho que finge ser durão, ele brinca, brinca com tudo e não sabe, não reconhece o perigo que são essas brincadeiras. Ele graceja, ele faz piadas com coisas sérias e então quando é com ele, só o vejo deixar a peteca cair e chorar. Meninos não aguentam.  Por que ele não se torna homem? Por que ele não sai dessas regalias de criança protegida e vem ao mundo, cria forças, monta num cavalo e maneja uma espada? Por que ele é desse jeito? Ele diz que assim a vida é mais simples, ele diz que tem medo, prefere muito mais o gostinho macio e doce de tutti-frutti que o picante e duro da carne mal-passada. E vai ficar assim pelo tempo que for necessário, até resolver tirar de dentro de si toda a virilidade que ele reserva para quando tiver coragem. Quando esse dia chegar, aqui estarei eu para lhe oferecer a água fresca depois de um dia árduo.

Read Full Post »

Se você soubesse a imensidão da dor que me causa cada manhã sem você, talvez teria adiado de boa saúde a sua já contada partida. Agora me pergunto o que faço com  toda a ausência que sobrou, com o nada que me restou e toda a falta que me mata um pouco por dia. Não consigo imaginar um ser humano que tenha nascido preparado para perder aquilo que mais preza, alguém. Dizem que o esquecimento vem para nos consolar, mas só consigo pensar nisso como uma desgraça, e se um dia eu acordar e não ter mais a lembrança nítida do seu rosto em minha memória?  Você terá por completo tirado toda sua vida de mim,  e nós perderá seu sentido pluralístico,  será mais um pronome partido ao meio, ou talvez mais que isso, já que a sua presença marcante ocupava a maior parte daquilo que eu podia contar como meu, nós. Serei menos que o singular, sem você serei para sempre um livro em branco.

Read Full Post »