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Archive for junho \15\UTC 2009

Um telefonema

Existem dois pesos, um dia descubro a medida deles, mas por enquanto, só sei que existem e são profundamente notáveis. De um lado da balança tem aquele que está sempre de partida, cujo fardo de culpa se acumula em cada despedida. De outro, está sentado aquele que sempre assiste as idas, aquele que fica e carrega  nas costas as dores da saudade.

Aprecio a energia  da presença, rezo para o adeus nunca chegar. Em algum momento eu  cansei de esperar pela volta ou de ter que inventar uma maneira nova de me desculpar pela ausência. Uma hora todas as demonstrações de afeto se esgotam e tenho simplesmente que me render à agonia de um adeus silencioso. Prometer um regresso breve já não funciona, talvez nunca tenha funcionado.

A repetição é algo que fica monótono.

Depois ainda tem as ligações, os telefonemas estranhos que deveriam trazer algum conforto.

Entre um oi e um tudo bem, nenhuma palavra mais, apenas um silêncio constrangedor e uma vontade de ficar mais tempo na linha só para sentir a presença humana do outro lado. Um pedaço de intimidade, um fiapo de voz, a respiração pesada denunciando alguma culpa, um suspiro, qualquer emoção é captada num desespero psicótico. Há um esforço dos dois extremos para manter alguma conversa, mas só sabemos falar do tempo e de qualquer coisa que não nos interessa, não porque queremos fingir, essa fase já passou. Apenas não sabemos o que fazer com a distância, ainda queremos de um jeito ou de outro guardar algum registro da nossa existência – ter a certeza de que ainda nos conhecemos e fazemos parte do mesmo mundo. Talvez somente a voz nos baste como recurso,  talvez não, temos que tentar, como sempre.

Num dia muito escuro perdemos o laço que nos unia, ou talvez ele nunca tenha existido, mas as conveniências sempre nos fizeram lutar para ter alguma coisa em comum. Lembro-me que já gostei de futebol só para ter o que falar com você, julgava que isso nos aproximava mais. Até passei a torcer pelo seu time só para sofrermos das mesmas dores ou estar feliz pelas mesmas razões. Você se orgulhava de mim, isso me incentivava a decorar o nome de todos os jogadores, de todos os campeonatos e a data de todos os jogos. Só para ter um bom motivo para ficarmos eufóricos juntos, porque de alguma maneira nada mais importava, eu era a filha certa para você. Agora não sei dizer quando foi que parei com isso. Hoje eu digo que o futebol não diminuia a corda que nos separava, tanto que eu nem sei mais em que divisão seu time está. Sim, seu time, não mais meu. Tenho que admitir que tudo isso cansa, não tenho energia para me forçar a gostar de coisas que não combinam comigo. Por enquanto, fiquemos com o silêncio que nos sobrou.

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