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Archive for the ‘diário’ Category

Que vontade

gritante de ficar em silêncio

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“O Bolota morreu”. Minha irmã me acordou assim e eu fiz perguntas incrédulas e idiotas  como se não tivesse entedido. Ai ela chorou. Mas continuo procurando por ele  no meio da casa. No meio, porque ele não era gato de ficar nos cantos, ele ficava no nosso caminho. Gordo e impassível. Mesmo depois de ver o “corpo” dele não consigo me conformar, não com sua gordura de gato castrado, mas com sua morte. Suas perninhas rijas pra cima me assustam, tenho vontade de abaixá-las pra parecer que ele apenas dorme, mas não dá certo porque ainda tenho medo que ele me morda.

Agora ele está dentro de uma caixa esperando meu tio enterrá-lo, porque nenhum de nós tem sangue-frio pra isso. Quando contei-lhe que Bolota estava morto, a primeira coisa que ouvi foi: droga, precisamos arranjar um novo gato.

Nossos animais são substituíveis.

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que um dia os dias parem

Os carros passam, os ponteiros giram, os muros caem, as pessoas andam. Ao contrário dos movimentos, eu resolvi esperar em silêncio, parei na calçada e deixei o tempo atravessar a rua com sua fileira interminável de dias longos.  Foi então que as coisas aconteceram e o dinamismo continuou  de uma forma que eu não pude acompanhar.

Eu me perdi nas passagens, nos giros, nas quedas e nos caminhos. Estática e mórbida. É bizarro como sei dizer poucas palavras, penso muito e não faço nada. Penso, porque estou parada, se estivesse dentro dos carros, olhando para as horas, derrubando as barreiras e caminhando com os outros, provavelmente não percebesse a travessia do tempo. Enquanto aguardo, sinto que estou na idade e situação errada. Também não quero aceitar o passado e não planejo nem imagino o que encontrarei do outro lado, logo à frente. Sim, estou incomodada com tudo que passa e não me dá a chance de agarrar e grudar em mim feito superbonder.

Pessoas, momentos, lugares. São todos uns fugitivos, se transformaram em lembranças e se resignaram a me deixar sozinha.

Quero congelar comigo aquelas cores, aqueles momentos, cada coisa que foi um presente destinado a ser passado.  Não quero lembranças, não quero saudades. Quero um hoje que seja para sempre.

Agora que está tudo apagado, meio acinzentado, eu fico pelo meio.

Meio da calçada, meio do chão, meio dos fatos. Só no meio, só existindo, como um poste – não sabe se vive, não sabe se faz alguma diferença, apenas está lá – com um fim limitado.

Sim, eu espero que muitas coisas se repitam, ou pelo menos que algumas sensações voltem. Não existe o eterno retorno? Que ele valha para mim.

Quero a minha felicidade ingênua de volta, quero as voltas.

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Protótipo de gente

Estou frequentemente mal humorada e fria, logo não tenho oportunidadades para escrever o que quero, só redações chatas, com temas que raramente me interessam. E o blog fica em 2568 plano.

Já tem um tempo que tempo deixou de ser tempo e agora não passa de uma mistura de fatos, uma massa gelatinosa e confusa de coisas que aconteceram e estão por acontecer. Não sou capaz de diferenciar os dias, todos iguais, a mesma cor, as mesmas vozes, o mesmo sol que não colabora. Não me pergunte quando começou e terminou um dia, já perdi essa noção, porque antes eu não contava pelas horas, mas pelos acontecimentos. Como não tem acontecido nada, os dias não existem. Nem sei se ainda preservo alguma criatividade,  já  que estou correndo por ai, esquecendo coisas pelo caminho, como todo mundo. Perdi o conceito de prazer e estou sendo cobrada para ser uma perfeita ameba em coma.

Protótipo de gente.

Logo eu, que sempre me esforcei para não me igualar às pessoas artificiais que vejo todos os dias, para ser pelo menos autêntica, verdadeira comigo mesma, que ninguém escolhesse por mim. Bah! Esqueci  de quem sou, do que gosto e principalmente,  de ser gentil.  Melhor, esqueci de ser eu mesma,  de fazer o que gosto e de estar perto de quem prezo. E nem sei de quem é a culpa por toda a bagunça.

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depreciação do humor

A vida deveria imitar um  comercial de margarina

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tato e sensibilidade

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Agora eu tenho um sabor estranho na boca, não sei se gosto. Agora eu tenho uma sensação no braço que não me deixa, como se alguém o tivesse segurado com uma força indecente e a possessão ficou marcada na minha pele.

Eu não reconheço meu corpo, é difícil identificar onde começa e onde termina o que realmente  faz parte de mim. Mesclado em outro material, até meu cheiro não é o mesmo. De alguma forma, isso me leva a crer que não estou mais sozinha, principalmente depois da pressão disfarçada de calor que nem o tempo conseguiu apagar.

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Um telefonema

Existem dois pesos, um dia descubro a medida deles, mas por enquanto, só sei que existem e são profundamente notáveis. De um lado da balança tem aquele que está sempre de partida, cujo fardo de culpa se acumula em cada despedida. De outro, está sentado aquele que sempre assiste as idas, aquele que fica e carrega  nas costas as dores da saudade.

Aprecio a energia  da presença, rezo para o adeus nunca chegar. Em algum momento eu  cansei de esperar pela volta ou de ter que inventar uma maneira nova de me desculpar pela ausência. Uma hora todas as demonstrações de afeto se esgotam e tenho simplesmente que me render à agonia de um adeus silencioso. Prometer um regresso breve já não funciona, talvez nunca tenha funcionado.

A repetição é algo que fica monótono.

Depois ainda tem as ligações, os telefonemas estranhos que deveriam trazer algum conforto.

Entre um oi e um tudo bem, nenhuma palavra mais, apenas um silêncio constrangedor e uma vontade de ficar mais tempo na linha só para sentir a presença humana do outro lado. Um pedaço de intimidade, um fiapo de voz, a respiração pesada denunciando alguma culpa, um suspiro, qualquer emoção é captada num desespero psicótico. Há um esforço dos dois extremos para manter alguma conversa, mas só sabemos falar do tempo e de qualquer coisa que não nos interessa, não porque queremos fingir, essa fase já passou. Apenas não sabemos o que fazer com a distância, ainda queremos de um jeito ou de outro guardar algum registro da nossa existência – ter a certeza de que ainda nos conhecemos e fazemos parte do mesmo mundo. Talvez somente a voz nos baste como recurso,  talvez não, temos que tentar, como sempre.

Num dia muito escuro perdemos o laço que nos unia, ou talvez ele nunca tenha existido, mas as conveniências sempre nos fizeram lutar para ter alguma coisa em comum. Lembro-me que já gostei de futebol só para ter o que falar com você, julgava que isso nos aproximava mais. Até passei a torcer pelo seu time só para sofrermos das mesmas dores ou estar feliz pelas mesmas razões. Você se orgulhava de mim, isso me incentivava a decorar o nome de todos os jogadores, de todos os campeonatos e a data de todos os jogos. Só para ter um bom motivo para ficarmos eufóricos juntos, porque de alguma maneira nada mais importava, eu era a filha certa para você. Agora não sei dizer quando foi que parei com isso. Hoje eu digo que o futebol não diminuia a corda que nos separava, tanto que eu nem sei mais em que divisão seu time está. Sim, seu time, não mais meu. Tenho que admitir que tudo isso cansa, não tenho energia para me forçar a gostar de coisas que não combinam comigo. Por enquanto, fiquemos com o silêncio que nos sobrou.

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