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Archive for the ‘Rabiscos viajantes’ Category

balanço no céu

A menina sentou no balanço e tomou impulso.

Entre um toque e outro do pé sobre a grama o balanço tomava altura, até ganhar o céu. Enquanto se deixava levar pelo ar, a criança nem se preocupou com o vestido, mas estava tudo seguro, do jeito que tinha que ser. Seus pés já não precisavam do chão, estavam soltos, longe da gravidade, quase perto do sol e mais próximo das nuvens.

Ela ainda não sabia o significado da simplicidade desses momentos, ela ainda não reconhecia o quanto o seu sorriso era autêntico,  nem entendia que o mundo era pequeno, porque para ela: ele ainda era infinito. Tenho certeza de que mais tarde tudo passará mais rápido, ela nem vai perceber que não terá mais tempo nem coragem para jogar o corpo no ar como agora;

Naquele instante, ela capturou a eternidade só tentando alcançar o céu. Aquilo era o mais alto que a corda podia ir, mas ela acreditou que havia criado asas e voava como um pássaro em liberdade. Entre as tantas coisas que ainda não tinha conhecimento, a ideia de estar presa era uma delas, ela só ria e brilhava por causa dessas realidades que  não conhecia, simplesmente porque ainda não tinha descoberto os seus limites. Oras, com a ajuda do vento ela só pensava em conquistar o ponto mais alto, mesmo sem saber que na terra não havia mais espaço. Creio que a ingenuidade era uma virtude.

A felicidade custava barato, ela sabia que custava, mas logo isso entraria para a lista das incontáveis coisas que deixaria de saber. No fim das contas, ela nunca soube de muito, enquanto a única coisa que realmente importava saber o mundo precisaria de poucos anos para fazê-la esquecer. Quando dizem que conhecimento é algo que ninguém pode te tomar, sou obrigada a negar, essa é uma das coisas que nem sempre ficam. De alguma forma as pessoas esquecem. E a menina do balanço nunca pensou que a felicidade não passasse de um voo.

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OBS: Acontece de às vezes eu não me lembrar da pessoa que fui ontem, portanto, fico sem entender quem eu era quando escrevi este texto.

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Eu te odeio.

Queria que você caísse numa cova e nunca mais fosse  encontrado, queria mesmo. Além do mais, eu não sentiria nenhum remorso de ser a única pessoa a saber que você está sofrendo e que vai morrer na agonia. Enquanto estiver com fome e sede, eu estarei brindando seus gemidos de desespero com um copo de coca-cola gelada acompanhada de uma rodela de limão. E estarei rindo alto.

Eu ainda não terei nenhum ataque de consciência ao ter a certeza de que o mundo sentirá a sua falta, porque nós dois sabemos que pessoas como você fazem a diferença, sempre fizeram.  Afinal,  são pessoas com o seu espírito que tornam o mundo mais doce, mais justo, mais suportável. Tudo isso porque além de existir, você vive e todos te percebem. Tanto que aquele termo “nem cheira nem fede” nunca combinou com você, sua natureza é unicamente entrar num lugar e dar cor, dar vida ao sangue daqueles que estão ali, faz com que todos sintam orgulho de estar ocupando o mesmo “espaço” que você. Admito que no começo também me senti assim,  mas descobri que não me fazia bem encontrar alguém tão isento de defeitos. Foi então que passei a sofrer de dores abdominais agudas  sempre que você se aproximava, enquanto dava saúde à muitos, você roubava a minha,  hoje me apaga.

Por muito tempo não entendi essa sua necessidade de impressionar, de deixar grifado seu nome onde que quer passe. Assim que descobri o quanto o mundo não te merecia, o quanto as pessoas são ingratas e hipócritas, cheguei à conclusão de que prefiro elas a você.  Eu odeio a sua verdade, eu odeio a sua transparência, eu odeio o seu amor pela vida e toda aquela autenticidade tatuada nos seus olhos. Eu quero matar a sua crença de um mundo melhor. Mais ainda, eu quero ser os macedônicos que destruíram Alexandre, o Grande, por temerem a sua sede de conquista. Aí sim, terei certeza de estar contribuindo para o fim do mundo simplesmente extinguindo aqueles indivíduos que o fazem valer a pena.

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Ex-amigos

Para o que der e vier, diziam-se um ao outro.

Mas nem para o que desse, nem para o que veio. Não passaram de promessas ingênuas, confianças momentâneas, segredos que foram trocados somente porque não conheciam outro uso para os seus pedaços de intimidade. Entretanto, foi dolorosa a convicção de que todas as pessoas são substituíveis quando um dia eles próprios se cruzaram na rua e fingiram que não se viram.

Apesar da sensação de culpa percebida por ambos os lados e daquela dor de terem deixado para trás fragmentos do corpo, não conseguiam voltar para confessar a falta que sentiam um do outro. Concluíram com tristeza que era tarde demais e  decidiram sem consultarem-se, que deveriam,  enfim, deixar tudo como estava. Conformaram-se com a batalha perdida, era preciso acostumar-se ao inevitável abismo que de repente se colocou entre eles.

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O homem de terno cinza continuou seu caminho como se nada estivesse acontecendo. Realmente, nada acontecia além da rotação da Terra e tantas outras coisas que aquele pobre alienado não conseguia perceber. Eu queria dizer que a culpa não é dele, o fato de estar passando às cegas por tudo ao seu redor é explicável porque a sociedade o fez assim. Mas se eu afirmar isso estarei excluindo ele dessa “sociedade”, enquanto no final das contas, ele é todo esse conjunto que o fez assim. Então não há como escapar na hora de procurar um culpado, todos os homens de terno cinza são culpados. Melhor, todos os homens de terno.

Um passo mais largo, outro menor, não importa, desde que seja rápido. É preciso chegar logo, o relógio já não marca as horas, mas o tempo que ainda resta.

Junto com ele, havia na rua cerca de mais cem mil homens de ternos: ternos preto, cinza, listrado, marrom.  Gravatas de bolinha, xadrez e quadriculada. Todos eles com uma maletinha na mão, andavam apressados, esbarrando uns nos outros, a maioria com o pescoço esticado e alguns ainda estavam com o celular próximo ao ouvido. Se eu não visse esse cenário todos os dias, poderia dizer  que ele veio de um quadro de Salvador Dalí. Aqueles homens caminhavam como se não se notassem, como se estivessem sozinhos. Não creio estarem errados, estavam sozinhos de verdade. É engraçado como eles se conformaram em continuar.

Não devo deixar de mencionar as mulheres, elas também são parte desse povo de terno,  que sai de um lugar e vai para o outro pior ainda. Que acorda de manhã para fazer algo que não gosta. Que toma um rumo estranho como se tivesse nascido fazendo isso. Passos frenéticos e automáticos.

Eu sempre tive a impressão de terem sido fabricados em série. Humanos genéticamente modificados para o trabalho. Não duvido que se obriguem a ir ao cinema, ao shopping e à praça, não por prazer, mas para verem se conseguem permanecer no auto-engano. Eu penso muito a respeito disso, sempre achei que o mais difícil era fingir para si mesmo, mas admito que talvez  eles estejam conseguindo. Se robôs começassem a circular junto com eles, ninguém ia perceber a diferença entre as duas espécies.

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Ela só tinha perspectiva, mas naquela idade não poderia ter outra coisa. Dois dias passam rápidos, um ano mais ainda, está para chegar o dia em que terá sonhos jogados no asfalto. Pelo menos tem consciência disso, sonhos não são feitos de cal e tijolo,  e ideias são que nem farinha, basta uma ventania e vão embora corrompidas.

Atou o nó do all star surrado, colocou a mochila nas costas e foi até o ponto de ônibus. Dessa vez ela não vai jogar com a sociedade, apenas pegar a sua liberdade que  desde há muito tempo estava guardada em algum bolso do seu jeans mais antigo. Mas não perdida, apenas esquecida. Chegou a hora de deixar gravado os seus versos, de marcar seu nome de forma silenciosa, não quer mais nenhum barulho, nenhuma guerra.

Agora ela não se importa mais com a demora do transporte, não tem pressa, não tem hora para chegar, aonde está indo não tem ninguém esperando por ela,  nenhum compromisso, nenhuma responsabilidade, senão aquela que prometeu a si mesma: “Respirar, sentir, viver”.  Enquanto houver alguém reclamando por dias melhores, por uma vida mais justa, ela fará seus próprios dias melhores, sua própria vida,  e ninguém poderá tirar a certeza de estar cumprindo seu dever. Porque ela sabe o que vale a pena, onde está o verdadeiro, o precioso.  E agora, tão somente agora, ela tomou consciência do que quer. Disse adeus aos velhos ideais baderneiros, ao aquecimento global, ao sistema de cotas,  ao mensalão, à legalização do aborto, ao preço das passagens, às preocupações cotidianas. Haviam outros jovens para substituí-la, sempre haveria. Assim como nasceu um Robespierre, também veio um Guevara, heróis não morrem, ela já fez sua parte, já descobriu como é fácil lutar e esquecer pelo que está lutando, já conheceu a frustração e a vitória. Neste momento –  enquanto ainda é jovem – está entregando o abacaxi para outro. Mesmo que não acreditasse mais em revoluções, ela faria mais uma, dessa vez interna.  O mundo que se matasse sozinho, ela ia arranjar seu jeito de sentar numa grama fresca e ler um romance de Kerouac.

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Dizem que em março as águas vêm, lavam tudo, levam consigo o que estiver solto ou fora do lugar. Mas chega abril e todos os objetos e sentimentos já estão espalhados, marcados pelas águas que passaram noutro mês. Agora é só sentar, ver o mundo girar e olha que sentado, completamente despreparado vem o vento te surpreender, como um furacão que despedaça tudo o que sobrou apenas para te provar na queda de braço o homem fraco que você é.

Você olha para baixo e o que tem aos pés não é o mundo e sim um escombro do que já foi teu castelo, são cinzas de um passado recente. Passeie com os olhos e procure o que estiver ao seu lado, se sentir falta dos membros, não se desespere, ainda vai perder a cabeça. É só um mês de perdas, abril desfigurado. Coração amassado, dores misturadas e lançadas ao liquidificador.

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a casa das dores

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Quero falar daqueles lugares que cheiram a formol e cloro, com paredes marfim-levemente-manchadas.

Traumatizante é conseguir chegar onde deseja, quando nem mesmo se encontrar é possível. Labirintos, escadas, corredores sombrios com aromas. E tem gente que ali vive, melhor dizendo, ali  sobrevive.

A morte nesse ambiente é mais do que visitante, sua entrada é franca  e constante. Talvez ela nem tenha a oportunidade de sair – já que é possível se perder por nunca ter achado a porta de saída -,e até mesmo acampe de boa vontade num daqueles quartos escuros. Já me passou pela cabeça que seu perfume predileto fosse o arejado formol-cloro que lembra limpeza, que sua cor favorita fosse o branco-fluorescente e sua melhor hora do dia fosse aquela em que o sol já não se encontra presente, não que os seres humanos tenham preferência por algum horário pra serem levados para o outro plano dimensional, as pessoas morrem a qualquer hora. Nada disso… talvez, talvez, talvez porque o sol não custume estar ali. Ainda acredito que a dona nem goste de estar nesse lugar, já ouvi dizer que as pessoas acabam perdendo o gosto pela aquela atividade que se vêem obrigadas a realizar todos os dias. Mas como não se trata de uma pessoa, deve haver algum prazer em se erguer simpaticamente sobre aquele que a aguarda suplicante, num quarto de paredes marfim-levemente-manchadas. Com certeza o fim de cada um tem algo de particular, um suspiro único, é possível que a dona seja apenas uma colecionadora de últimos suspiros.  Muitas vezes ela sem querer deve se transformar no alívio, não na tristeza, quem tem dor implora pela morte como um anestésico, um sedativo eterno. Então também há alguma dignidade, como qualquer tipo de trabalho honesto, essa coisa de levar embora?

Para disso, estamos saindo do foco, eu queria falar do lugar, não do ser que o frequenta.  Já que o local serve exatamente para evitar o fatal, adiar o inevitável, como ficam gravados os seus sons agitados, gritos cortados, ordens enérgicas nos ouvidos daqueles que estão partindo? O agradável passa longe, conforto é apenas um sonho.

Existem aqueles que estão ali apenas para servir, naquelas vestes brancas que lembram fantasmas vagando, não sei se marcam-se presentes por prazer, talvez a tentativa de salvamento seja alguma dívida ao pensar que aquele que estava deitado agonizante poderia ser um deles. Depois de dez anos correndo por locais semelhantes, a vida deve parecer um desafio mais interessante que a morte.

Tudo é tão vermelho e branco em alguma sala depois de uma porta denominada “Centro Cirúrgico”. Paredes marfim-levemente-manchadas mal são notadas, simplesmente porque quando a gente se acostuma, outras cores deixam de existir. De vez em quando tem quem venha fazer uma piada, algum riso pode ser escutado, mas logo o som é abafado por passos, passos apressados, metal arranhando o chão, sons comuns.

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